Quem anda pelo Oeste catarinense já se acostumou com a paisagem: telhados de casas, aviários, galpões de suínos e silos cobertos de placas azuis brilhando no sol. A energia solar virou parte do cenário. Mas você já parou para pensar no que vai acontecer com todas essas placas daqui a 25 ou 30 anos?
A resposta curta: painel solar pode ser reciclado, e quase inteiro. Especialistas reunidos na Intersolar South America 2026 estimam que cerca de 97% do material de um módulo pode ser recuperado. O problema é que, hoje, o Brasil ainda não tem uma estrutura obrigatória para isso. Grande parte dos painéis danificados acaba em aterros. É isso que o PL 753/2026, em análise na Câmara dos Deputados, tenta mudar.
Aqui no Eu Mais Sustentável eu já contei a história de quem gera energia limpa na nossa região, como o case da Projeal em Chapecó e a trajetória da ENACE. Energia limpa precisa de um ciclo limpo, do começo ao fim.
Quanto tempo dura um painel solar?
Um painel solar costuma ter garantia de desempenho de 25 a 30 anos. Nesse período, ele perde eficiência aos poucos, mas continua gerando energia. Muitos módulos, porém, saem de uso antes do prazo, por granizo, quebra no transporte ou na instalação, defeitos ou troca por modelos mais potentes.
Ou seja, o “lixo solar” não é só um problema de 2050. Ele já existe hoje, em menor escala, toda vez que uma placa trinca com uma chuva de pedra ou quando uma empresa decide substituir os módulos antigos por outros mais eficientes. Esse processo, chamado de repotenciação, deve crescer à medida que a tecnologia avança.
Quanto lixo de painel solar o Brasil vai gerar?
O Brasil tem 77,6 GW de energia solar instalada, segundo dados da ABSOLAR divulgados em setembro de 2026. Desse total, 54 GW são de geração distribuída (telhados e pequenas usinas) e 23,6 GW de grandes usinas. Estudos citados no PL 753/2026 estimam que o país pode gerar cerca de 550 mil toneladas de painéis descartados nas próximas décadas.
Os números atualizados da capacidade instalada podem ser acompanhados neste levantamento do Canal Solar com dados da ABSOLAR. Para ter uma ideia da escala, a maior parte dessa capacidade foi instalada nos últimos cinco ou seis anos. Isso significa que a grande onda de descarte ainda está por vir. Especialistas do setor apontam o período entre 2035 e 2044 como o início do aumento expressivo.
No mundo, a Agência Internacional de Energia Renovável (IRENA) projeta que o descarte anual de módulos passe de 25 milhões de toneladas por ano em 2050.
A boa notícia é que o Brasil está numa janela favorável. O volume atual ainda é pequeno, o que dá tempo de estruturar a reciclagem antes que o problema fique grande. A má notícia é que janelas se fecham.
Do que é feito um painel solar e o que dá para reciclar?
Um painel solar de silício, o tipo mais comum, é feito principalmente de vidro: cerca de três quartos do peso. Depois vêm a moldura de alumínio, os polímeros que encapsulam as células, o silício e pequenas quantidades de cobre, prata e estanho. Quase tudo pode ser recuperado e voltar para a indústria.

| Material | Onde está no painel | O que pode virar |
|---|---|---|
| Vidro | Placa frontal (a maior parte do peso) | Novo vidro, fibra de vidro, insumo para construção |
| Alumínio | Moldura | Alumínio reciclado, com alto valor de mercado |
| Cobre | Fios, conectores e fitas das células | Fios e componentes elétricos |
| Prata | Contatos das células (em quantidade mínima) | Metal precioso de alto valor |
| Silício | Células fotovoltaicas | Indústria metalúrgica e química |
| Polímeros | Encapsulante e camada traseira | Recuperação energética ou novos materiais |
O processo mais usado no Brasil é mecânico. Primeiro, retira-se a moldura de alumínio, a caixa de junção e os cabos. Depois, o painel é triturado e as frações são separadas: vidro, alumínio, plásticos e uma mistura de metais. Essa mistura, que tem silício, prata, cobre e estanho, segue para empresas especializadas em recuperar cada metal.
Segundo a IRENA, os materiais recuperados de painéis no mundo podem valer mais de US$ 15 bilhões até 2050. Lixo, aqui, é matéria-prima no lugar errado.
Onde descartar painel solar no Brasil hoje?
Hoje, o caminho mais seguro é procurar quem vendeu ou instalou o sistema, ou uma recicladora especializada em módulos fotovoltaicos. Painel solar não deve ir para o lixo comum, para caçamba de entulho nem para ferro-velho, porque a desmontagem informal pode liberar metais como chumbo e estanho da solda.

Se você tem um painel quebrado ou vai trocar o sistema, siga este roteiro:
- Fale primeiro com o instalador ou o distribuidor. Pergunte, de preferência por escrito, como funciona o recolhimento. Alguns fabricantes já têm programas próprios de devolução.
- Se foi granizo ou defeito, acione a garantia e o seguro antes de descartar. A seguradora ou o fabricante podem exigir o módulo para análise.
- Procure uma recicladora especializada. A SunR, por exemplo, atua desde 2020 com logística reversa e reciclagem de módulos em todo o país, com unidades em Valinhos (SP) e Montes Claros (MG). Segundo a empresa, mais de 190 mil módulos já passaram por sua gestão.
- Guarde a nota fiscal e a ficha técnica. Elas ajudam a rastrear o produto e a cobrar a responsabilidade do fabricante.
- Pense em segunda vida. Um painel que perdeu parte da potência, mas funciona, ainda pode alimentar uma bomba d’água, uma cerca elétrica ou a iluminação de um galpão.
- Nunca misture com entulho de obra, nem numa reforma de telhado.
E as baterias de energia solar?
As baterias são o próximo grande desafio. As de chumbo-ácido já têm um sistema de recolhimento e reciclagem estabelecido no Brasil. As de lítio, cada vez mais usadas para armazenar energia solar, ainda não têm uma estrutura equivalente consolidada, e o descarte incorreto pode causar incêndios e contaminação.

Com a energia solar crescendo e o setor elétrico precisando guardar energia para usar à noite, o armazenamento em baterias tende a explodir nos próximos anos, em residências, empresas e grandes usinas. Por isso, a regra é simples:
- Bateria nunca vai para o lixo comum. Baterias de lítio danificadas podem superaquecer e pegar fogo.
- Devolva ao fabricante, ao revendedor ou ao instalador, que devem dar a destinação correta.
- Segunda vida também vale aqui. Baterias de carros elétricos, por exemplo, podem ser remontadas para armazenamento estacionário antes da reciclagem final.
Falei sobre o avanço dos veículos elétricos em O guia da Revolução Elétrica Brasileira, e essa é a outra ponta da mesma história.
O que muda com o PL 753/2026?
O Projeto de Lei 753/2026, do deputado Clodoaldo Magalhães (PV-PE), inclui painéis solares, baterias e sistemas de armazenamento de energia na logística reversa obrigatória da Política Nacional de Resíduos Sólidos. Fabricantes, importadores e comerciantes passariam a ser responsáveis por recolher e reciclar esses equipamentos depois do uso.
Na prática, o projeto prevê que:
- As empresas montem sistemas próprios de coleta, sem depender do serviço público de limpeza urbana.
- Os instaladores orientem o consumidor sobre a devolução e recebam os equipamentos substituídos na manutenção, encaminhando tudo para unidades licenciadas.
- Os produtos sejam pensados para a reciclagem, com menos substâncias perigosas e montagem mais fácil de desfazer (o chamado ecodesign).
O projeto já tem parecer favorável, com um texto substitutivo, na Comissão de Meio Ambiente da Câmara. Ele tramita em caráter conclusivo em três comissões (Meio Ambiente, Desenvolvimento Urbano e Constituição e Justiça) e ainda precisa passar pelo Senado. Ou seja: ainda não é lei.
Enquanto isso, o que vale é a Política Nacional de Resíduos Sólidos (Lei 12.305/2010), que estabelece a responsabilidade compartilhada sobre os resíduos. Parte do setor entende que os módulos residenciais já se encaixam no decreto de logística reversa de eletroeletrônicos domésticos (Decreto 10.240/2020). As usinas de médio e grande porte, porém, seguem sem uma regra específica de descarte.
Por que isso importa para as empresas?
Para quem vende, instala ou usa energia solar em escala, como indústrias, cooperativas, agroindústrias e usinas, o fim de vida dos equipamentos deixa de ser detalhe e vira estratégia:
- Risco regulatório: se o PL for aprovado, a responsabilidade pelo recolhimento será obrigatória.
- Reputação ESG: não adianta vender energia limpa e deixar um passivo no aterro.
- Oportunidade de negócio: recolhimento, reciclagem, reaproveitamento e venda de módulos de segunda vida são mercados em formação.
Empresas que se anteciparem vão sair na frente. E quem estiver na nossa região e quiser mostrar o que já faz nessa área, o Eu Mais Sustentável está aberto para contar essas histórias.
Perguntas frequentes
Painel solar pode ser reciclado?
Sim. Cerca de 97% do material de um módulo pode ser recuperado, segundo especialistas do setor. O vidro, o alumínio, o cobre, a prata e o silício voltam para a indústria. No Brasil, a reciclagem ainda é pequena, mas já existem empresas especializadas.
Quanto tempo dura um painel solar?
A garantia de desempenho costuma ser de 25 a 30 anos. Depois disso, o painel continua funcionando, com menor eficiência. Muitos módulos são descartados antes, por granizo, quebras, defeitos ou troca por modelos mais potentes.
Onde descartar painel solar quebrado?
Procure primeiro o instalador, o distribuidor ou o fabricante, que podem ter programas de recolhimento. Outra opção são as recicladoras especializadas em módulos fotovoltaicos. Não descarte no lixo comum, em caçambas de entulho ou em ferros-velhos.
Painel solar é lixo tóxico?
Em uso, o painel não oferece risco. Mas alguns modelos têm pequenas quantidades de chumbo e estanho na solda, que podem contaminar o solo e a água se o painel for quebrado e desmontado de forma inadequada ou largado em lixões. Por isso o descarte deve ser feito em recicladoras licenciadas.
O que é o PL 753/2026?
É um projeto de lei da Câmara dos Deputados que torna obrigatória a logística reversa de painéis solares, baterias e sistemas de armazenamento de energia. Fabricantes, importadores e comerciantes ficariam responsáveis pelo recolhimento e pela reciclagem. O projeto ainda está em tramitação.
Energia limpa precisa de um ciclo limpo
A energia solar é uma das melhores notícias da transição energética brasileira. Mas sustentabilidade de verdade olha o ciclo inteiro: de onde vem o material, como ele é usado e para onde vai depois. Um painel que gera energia limpa por 30 anos e termina num aterro conta só metade da história.
A gente ainda tem tempo de escrever a outra metade direito.
E você: já tem energia solar em casa ou na empresa? Sabe o que vai fazer com as placas no fim da vida útil? Me conta nos comentários. E se você trabalha no setor, compartilhe este texto com quem precisa pensar nisso agora.
Thiago Carvalho é jornalista, fundador da MVC Assessoria e Comunicação e criador do Eu Mais Sustentável. Siga no Instagram: @carvasthiago.

Sustentabilidade
Sustentabilidade
Sustentabilidade