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NR-1 e saúde mental no trabalho: o que as empresas precisam fazer (e por que isso é sustentabilidade)

Por Thiago Carvalho · · 11 min de leitura

Equipe reunida em volta de uma mesa num escritório iluminado, com a gestora ouvindo os colaboradores numa conversa aberta

Meta que ninguém consegue bater. Chefe que resolve tudo no grito. Mensagem de trabalho às 23h. Reestruturação anunciada por e-mail numa sexta-feira. Durante muito tempo, isso foi tratado como “o jeito que as coisas são”. Agora, tem outro nome: risco ocupacional.

Desde 26 de maio de 2026, a NR-1, norma que organiza a segurança e saúde no trabalho no Brasil, exige que as empresas identifiquem, avaliem e controlem os riscos psicossociais, assim como já faziam com ruído, produtos químicos ou risco de queda. As multas por descumprimento estão suspensas pelo STF enquanto uma conciliação avança. A obrigação de gerenciar esses riscos, porém, continua valendo.

Neste artigo, explico o que mudou, o que o STF decidiu, um passo a passo para adequar a empresa e por que isso tem tudo a ver com sustentabilidade.

Atualizado em 4 de novembro de 2026: as multas ligadas aos riscos psicossociais seguem suspensas pelo STF até cerca de 23 de dezembro de 2026, e a conciliação continua em andamento. A obrigação de gerenciar os riscos não mudou.

O que é a NR-1 e o que mudou?

A NR-1 é a Norma Regulamentadora que estabelece as regras gerais de segurança e saúde no trabalho e o Gerenciamento de Riscos Ocupacionais (GRO). Com a Portaria MTE nº 1.419/2024, ela passou a incluir expressamente os fatores de risco psicossociais. As empresas precisam colocá-los no inventário de riscos do PGR (Programa de Gerenciamento de Riscos), com plano de ação.

A linha do tempo:

DataO que aconteceu
Ago/2024Portaria MTE nº 1.419/2024 inclui os riscos psicossociais no GRO da NR-1
Abr/2025O MTE publica o Guia de Informações sobre os Fatores de Riscos Psicossociais Relacionados ao Trabalho
Mai/2025Começa a fase educativa, sem multas (Portaria MTE nº 765/2025)
26/05/2026A exigência entra plenamente em vigor
25/06/2026O STF suspende por 90 dias as multas e outras sanções (ADPF 1316)
18/08/2026O Plenário do STF confirma a suspensão, por unanimidade
24/09/2026A suspensão é prorrogada por mais 90 dias para continuar a conciliação

O que são riscos psicossociais no trabalho?

Riscos psicossociais são características da organização e da gestão do trabalho que podem causar estresse, adoecimento mental e até acidentes. Exemplos: sobrecarga, assédio, falta de autonomia, metas irreais e falta de apoio da liderança. O foco da NR-1 é o ambiente e a forma de trabalhar, não o diagnóstico da saúde mental de cada empregado.

Esse ponto é importante e costuma gerar confusão: a norma não pede que a empresa avalie a saúde mental individual dos funcionários. Ela pede que a empresa olhe para como o trabalho está organizado e corrija o que adoece as pessoas.

O guia do MTE lista 13 fatores que merecem atenção:

Fator de riscoComo aparece no dia a diaExemplo de medida
Assédio (moral, sexual, discriminatório)Humilhações, piadas, perseguiçãoPolítica clara, canal de denúncia sigiloso, treinamento
Excesso de demandasMetas irreais, prazos impossíveis, horas extras constantesRevisar metas e dimensionamento da equipe
Baixa demandaOciosidade forçada, tarefas sem sentidoRedistribuir atividades, dar propósito às funções
Falta de autonomiaMicrogerenciamento, nenhuma influência sobre o ritmoDar margem de decisão e pausas
Falta de suporteChefia ausente, colegas sem apoioTreinar líderes e criar rotinas de feedback
Baixo reconhecimentoEsforço sem retornoReconhecimento justo, plano de carreira
Falta de clareza de papelNinguém sabe o que se espera de quemDescrições de função e combinados claros
Má gestão de mudançasReestruturações sem comunicaçãoComunicar com antecedência e envolver as equipes
Baixa justiça organizacionalRegras aplicadas de forma desigualCritérios transparentes
Maus relacionamentosConflitos recorrentes, clima hostilMediação, cuidado com o clima
Eventos violentos ou traumáticosAssaltos, agressões, acidentes gravesProtocolos de segurança e acolhimento
Comunicação difícilRuído, isolamento, falta de canaisCanais adequados e pontos de contato
Trabalho remoto e isoladoJornada sem limite, solidãoPolítica de desconexão, encontros de equipe

Fonte: Guia de Informações sobre os Fatores de Riscos Psicossociais Relacionados ao Trabalho (MTE, 2025). Os exemplos de medidas são sugestões editoriais.

Por que o governo endureceu as regras?

Porque o adoecimento mental ligado ao trabalho explodiu. Em 2025, a Previdência Social concedeu 546.254 benefícios por incapacidade temporária ligados a transtornos mentais e comportamentais, 15,66% a mais que em 2024. Ansiedade e depressão lideram a lista.

Os números ajudam a entender a escala:

  • 166.489 afastamentos por transtornos ansiosos e 126.608 por episódios depressivos em 2025, segundo dados da Previdência Social.
  • 58% dos brasileiros citam a saúde mental entre os maiores problemas de saúde do país, a principal preocupação pela primeira vez, segundo o Ipsos Health Service Report 2026. Falei disso em detalhe em Saúde mental virou a maior preocupação de saúde dos brasileiros.
  • 39% dos brasileiros apontam o custo como a principal barreira para buscar ajuda profissional, segundo o Mind Health Report 2026, da AXA.

Cada afastamento custa para a pessoa, para a família, para a empresa e para a Previdência. A NR-1 tenta atacar o problema na origem: no jeito como o trabalho é organizado.

A NR-1 está suspensa? O que o STF decidiu

Não. A NR-1 continua valendo. O que o STF suspendeu foi a aplicação de multas e outras sanções administrativas ligadas aos riscos psicossociais. A decisão é do ministro André Mendonça, na ADPF 1316, foi confirmada pelo Plenário e, em setembro de 2026, prorrogada por mais 90 dias, enquanto as partes tentam uma conciliação.

Entenda o caso:

  • Quem questionou: a Confederação Nacional dos Estabelecimentos de Ensino (Confenen). Ela argumenta que a norma não define parâmetros claros para avaliar os fatores psicossociais nem para aplicar penalidades.
  • O que foi suspenso: apenas as multas e sanções administrativas. A norma não foi declarada inconstitucional.
  • Conciliação: o caso foi enviado ao Núcleo de Solução Consensual de Conflitos (Nusol) do STF. A primeira audiência foi em 14 de setembro. Depois dela, entidades como CNSaúde e CNC pediram mais tempo para negociar, e a suspensão foi prorrogada.
  • O que continua obrigatório: identificar, avaliar e gerenciar os riscos ocupacionais, incluindo os psicossociais.

Na prática, esperar a decisão final para agir é arriscado. Advogados trabalhistas alertam que a falta de gestão desses riscos pode pesar contra a empresa em ações na Justiça do Trabalho. E o mais importante: o adoecimento das pessoas não espera a conciliação terminar.

Como adequar a empresa à NR-1: passo a passo

Para se adequar, a empresa deve identificar os fatores de risco psicossociais, avaliar e priorizar esses riscos, registrá-los no inventário do PGR, criar um plano de ação com prazos e responsáveis e monitorar os resultados, sempre ouvindo os trabalhadores. O processo é o mesmo já usado para outros riscos ocupacionais.

  1. Envolva a liderança e o time de SST (Segurança e Saúde no Trabalho). Sem a direção comprometida, o plano vira papel. Se a empresa não tem equipe própria, busque uma consultoria ou um profissional de SST.
  2. Identifique os fatores de risco. Use mais de uma fonte: questionários validados, entrevistas, rodas de conversa e indicadores como absenteísmo, rotatividade, horas extras e afastamentos. Comece pela Avaliação Ergonômica Preliminar (AEP), que integra a NR-1 à NR-17 (ergonomia). O manual oficial do GRO e do PGR, do Ministério do Trabalho, detalha esse processo.
  3. Avalie e priorize. Nem tudo tem o mesmo peso. Cruze a probabilidade com a gravidade e veja quais setores estão mais expostos.
  4. Registre no PGR. Os fatores psicossociais precisam constar no inventário de riscos, com os grupos de trabalhadores expostos.
  5. Monte um plano de ação. Medidas concretas, com responsável e cronograma: rever metas, treinar líderes, criar um canal de denúncia de assédio, estabelecer uma política de desconexão.
  6. Monitore e revise. Acompanhe os indicadores e ajuste o plano. Gestão de risco não é um documento que se faz uma vez e se engaveta.
  7. Ouça quem trabalha. Ninguém conhece melhor os riscos do que quem vive a rotina. A CIPA, que desde 2022 também cuida da prevenção ao assédio, é uma aliada natural.

E as pequenas empresas? Microempreendedores individuais, microempresas e empresas de pequeno porte têm tratamento diferenciado na NR-1, com algumas exigências simplificadas ou dispensadas, dependendo do grau de risco. Mesmo assim, segundo o MTE, todas as empresas devem adotar ações de prevenção. Vale confirmar o enquadramento com um profissional de SST.

Avaliação de risco psicossocial não é pesquisa de clima. A pesquisa de clima mede satisfação. A avaliação de risco mede o que, na organização do trabalho, pode adoecer as pessoas. As duas se complementam, mas uma não substitui a outra.

Por que isso é sustentabilidade (e não só burocracia)?

Porque nenhuma empresa é sustentável se esgota as pessoas que a fazem funcionar. Cuidar dos riscos psicossociais é o “S” do ESG na prática: reduz afastamentos e rotatividade, protege a reputação e a sustentabilidade financeira do negócio e, principalmente, preserva a saúde de quem trabalha.

Em um artigo recente, falei em sustentabilidade humana: a capacidade de manter um ritmo que não esgote os próprios recursos. Uma empresa é um ecossistema. Se ela extrai mais energia das pessoas do que devolve, uma hora o sistema colapsa, em forma de afastamentos, rotatividade, erros, acidentes e processos.

Já escrevi sobre como equilibrar resultado e qualidade de vida em Performance e paz: Como a curadoria estratégica pode transformar sua rotina e seus negócios. A NR-1 obriga as empresas a olhar para algo que as melhores já faziam por convicção.

E há incentivo para quem vai além do mínimo: a Lei 14.831/2024 criou o Certificado Empresa Promotora da Saúde Mental, válido por dois anos. Ele reconhece empresas com programas de saúde mental, capacitação de lideranças, combate ao assédio e ações de bem-estar.

E se você é trabalhador?

  • Conheça seus direitos: riscos psicossociais agora fazem parte da gestão de saúde e segurança da empresa.
  • Use os canais: CIPA, RH, canal de denúncia ou, se necessário, o Ministério Público do Trabalho.
  • Não normalize o adoecimento: sobrecarga constante e assédio não são “parte do jogo”.
  • Cuide de você: se estiver no limite, procure ajuda. O CVV atende de graça pelo 188, 24 horas, e o SUS oferece atendimento pelas UBS e CAPS. Para lidar com as emoções no dia a dia, leia também Tá nervoso? Olhe para dentro!

Perguntas frequentes

O que a NR-1 exige sobre riscos psicossociais?

A NR-1 exige que as empresas identifiquem, avaliem e controlem os fatores de risco psicossociais relacionados ao trabalho, como sobrecarga, assédio e falta de autonomia. Esses fatores devem constar no inventário de riscos do PGR, com um plano de ação. A exigência vale desde 26 de maio de 2026.

A NR-1 está suspensa?

Não. O STF suspendeu apenas as multas e sanções administrativas ligadas aos riscos psicossociais, na ADPF 1316. A suspensão foi confirmada pelo Plenário e prorrogada por 90 dias em setembro de 2026, enquanto se busca uma conciliação. A obrigação de gerenciar os riscos continua.

Quais são os riscos psicossociais no trabalho?

O guia do Ministério do Trabalho lista 13 fatores, entre eles assédio, excesso de demandas, falta de autonomia, falta de suporte, baixo reconhecimento, má gestão de mudanças, maus relacionamentos e trabalho remoto e isolado.

A empresa precisa avaliar a saúde mental de cada funcionário?

Não. A NR-1 trata dos fatores da organização do trabalho que podem adoecer as pessoas, não do diagnóstico individual. A empresa deve avaliar o ambiente, as metas, a gestão e as relações de trabalho, e corrigir o que for necessário.

Pequenas empresas também precisam cumprir a NR-1?

Sim, com tratamento diferenciado. MEI, microempresas e empresas de pequeno porte podem ter exigências simplificadas ou dispensadas, conforme o grau de risco, mas todas devem adotar ações de prevenção. É recomendável confirmar o enquadramento com um profissional de SST.

O trabalho também precisa ser sustentável

A gente costuma pensar em sustentabilidade como energia limpa, reciclagem e preservação. Tudo isso importa. Mas uma empresa que instala painel solar no telhado e adoece a equipe por dentro conta só metade da história.

A NR-1 é um empurrão, e às vezes a gente precisa de um. Mas as empresas que vão se destacar são as que entenderem que cuidar das pessoas não é custo: é o que mantém o negócio de pé.

E na sua empresa: os riscos psicossociais já entraram na pauta? Me conta nos comentários. Se você faz gestão de pessoas, compartilhe este texto com sua liderança. E se a sua empresa já desenvolve boas práticas de saúde mental, quero contar essa história aqui no Eu Mais Sustentável.

Este conteúdo é informativo e não substitui orientação jurídica ou técnica. Para adequar sua empresa, consulte profissionais de Segurança e Saúde no Trabalho e assessoria jurídica.

Thiago Carvalho é jornalista, fundador da MVC Assessoria e Comunicação e criador do Eu Mais Sustentável. Siga no Instagram: @carvasthiago.

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